sexta-feira, 7 de abril de 2017

Histórias à margem (1)

Penso que sabe que um dia me meti no combóio, em Vila Pery (Chimoio), pelo Natal de 1970, e viajei até à cidade fronteiriça rodesiana de Umtali... Foi uma reedição da ida a Likoma, só que o barcelense não estava lá para me pôr em apuros. Ai estes milicianos indisciplinados...
Pois. O pior foi que na estação de destino o polícia rodesiano me perguntou pela autorização militar... Eu só levava passaporte! E, a seguir, perguntou-me onde tinha reservado alojamento... Este rapaz, fuzileiro desenrascado, pensava fazê-lo depois de chegar (como veio a acontecer). O homem nem queria acreditar!!! Eu bem olhava para o indiano, homem de negócios que vinha de Moçambique e com quem conversara durante a viagem, mas o que podia ele fazer?...
Bom, lá sugeri ao nosso amigo rodesiano que escolhesse um hotel (salvo erro, foi assim), prometendo telefonar logo que fizesse a admissão.
Ele deve ter pensado: bom, este português não tem cara de vigarista (coisa muito falível), se fugir não vai longe, pelo que é melhor fazer-lhe a vontade e deixá-lo conhecer Umtali by Christmas. Adorei a pequena cidade, com o seu jardim repleto de luzes da quadra, as montanhas circundantes, o asseio impecável, a livraria onde adquiri 2
livros sobre animais africanos e sobre a Rhodesia, a placa de prioridade a dizer "Give Way, o parque de estilo não sei se inglês se japonês. Mas foi neste café, em cuja esplanada me sentei para beber um refresco, que tive a maior surpresa: era propriedade de madeirenses (onde é que os portugueses e os madeirenses não chegaram?) e um grupo de miúdos veio-me propôr a compra de artesanato... Tenho pena de não ter comprado, mas o dinheiro escasseava!
No dia seguinte, de regresso à estação, lá estava o mesmo guarda.
Olhou-me aliviado, talvez pensando: bem, às vezes vale a pena sermos simpáticos e esquecer a burocracia...
Entrei no combóio, num compartimento vazio. Daí a pouco chegou um rodesiano que trepou para o beliche e nem uma palavra. Depois... bem, depois chegou o resto da Europa em peso: um sueco, um alemão, um
dinamarquês; eram professores na Zâmbia e iam ver com os seus olhos o que era o Moçambique colónia portuguesa. Lá fui fazendo de cicerone
improvisado e respondendo a perguntas embaraçosas...
A certa altura, enquanto o trem deslizava vagarosamente pela noite africana, o alemão gritava pela janela: "Eh! Está aí alguém?!..."
Depois chegou, em Machipanda, o nosso funcionário da alfândega, com o crachá no ombro... Um deles, acho que o sueco, apontou para o emblema e perguntou, sarcástico: Pide? Pide?... O guarda olhou para mim, encabulado, e comentou: "Este malando já se está a meter comigo!..."
Adorava hoje poder falar com eles, mas fiquei sem os nomes e endereços.
Hoje, a Suécia faz parte da U.E., mas resguardou-se, não entrando para o Euro... A Dinamarca fez a mesma coisa. E os alemães rebocam a locomotiva com gente perplexa que olha pela noite económica, sem descortinar gente...

Notas: 
1. Texto de 07FEV2012 do Dr. Antides Santo (3º Oficial do DFE5)
2. O DFE5 encontrava-se nesta altura em Tete e Tchirose e o STEN Santo tinha ido frequentar um Curso de Pisteiros..